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Uma viagem ao Jardim Botânico
de São Paulo
Ela era morena
e bonita e brilhava em uma tarde ensolarada depois
de uma pancada de chuva. Não, ela não
era a Garota de Ipanema. Ela era muito peluda
e do tamanho de um “beagle”, um cão
de médio porte, e estava pendurada de cabeça
para baixo comendo “coquinhos” em
uma palmeira jerivá.
Se você não
adivinhou ainda, ela é um macaco nativo
da America do Sul, um membro do grupo dos mamíferos
denominado cientificamente como Primatas. Aliás,
grupo no qual todos nós humanos também
estamos incluídos.
Esse macaco é
chamado comumente de bugio. O macaco-bugio que
eu estava observando era uma mamãe bugio,
e seu filhote se exibia em todas as direções,
de cabeça para baixo, para cima e para
os lados, mas quase sempre agarrado aos pêlos
de sua mãe.
Felizmente, a mamãe
tinha uma quinta mão no final de sua cauda
musculosa. Esta "mão" não
era de fato uma mão, mas uma cauda preênsil
característica em todos os bugios. Esta
cauda possui em sua extremidade interna uma parte
nua, desprovida de pêlos para que os bugios
possam se prender mais firmemente aos galhos das
árvores, mantendo-se de cabeça para
baixo. Esta parte da cauda possui até “impressões
digitais”. Dentre
todos os Primatas, apenas algumas das muitas espécies
sul-americanas possuem uma cauda preênsil.
Naquele momento,
a cauda da mãe estava enrolada firmemente
em torno de um grosso caule que a sustentava de
cabeça para baixo, enquanto alcançava
um cacho de “coquinhos”. Esta posição,
impressionantemente arriscada, por incrível
que pareça, lhe permitiu “manusear”
melhor os frutos.
Eu percebi então
que o filhote de bugio era provavelmente um pré-adolescente
(em termos humanos), pois pude observá-lo
sair das costas da mãe e sozinho se dirigir
para o topo da palmeira. Ele subiu até
as folhas mais altas e aí se cansou, e
voltou para o aconchego da mamãe bugio
novamente.
O pré-adolescente
queria um pouco de independência, porém
ainda sob a atenção da mãe.
Ele estava querendo demonstrar um pouco de desprendimento
pré-adolescente, literalmente!
Como eu estava assistindo
às exibições de habilidades
acrobáticas da mamãe bugio e seu
pré-adolescente, tive um grande receio
de testemunhar uma queda repentina de uma altura
“extrema”, uma queda que provavelmente
seria mortal!
Um abraço
frouxo nas costas de sua mãe e esse jovem
poderia despencar no chão da floresta.
Um lapso de atenção, ou de coordenação
por parte da mãe, e ela poderia ir em direção
ao chão da floresta, talvez com o filhote
a bordo!
Pense em tudo que
a mamãe bugio precisa de alguma forma saber.
Por exemplo: quão forte é o caule
que sustenta o cacho de coquinhos? Será
que este tronco pode me aguentar? Afinal, não
sou tão leve! E mais, será que o
caule pode me suportar com meu pré-adolescente
que é um pouco indisciplinado?
Felizmente não
presenciei nenhuma queda, devido ao fato dos bugios
conhecerem muito bem suas capacidades quando se
trata de escalar árvores. Isto ocorre em
razão da experiência que eles adquirem
ao longo da infância e adolescência,
uma vez que, desde bem jovens, os bugios praticam
saltos pelos galhos das florestas.
Os bugios são
muito afortunados, porque seus corpos e comportamento
foram moldados pelo processo de evolução
ao longo de milhões de anos. Além
disso, possuem uma cauda preênsil muscular
e muita força nos dedos das mãos
e dos pés, os quais são providos
de unhas. Possuem também boa visão
que lhes permite julgar a distância exata
entre os galhos e, finalmente com seus cérebros
grandes, são capazes de aprender. Por exemplo,
esse bugio pré-adolescente com certeza
estava aprendendo muito ao observar a escalada
de sua mãe para a obtenção
de alimento.
Você também
pode assistir às incríveis proezas
da mamãe bugio e seu filhote pré-adolescente!
Tudo que você precisa fazer é visitar
o Jardim Botânico de São Paulo, que
fica a 20 minutos do centro da cidade.
No Jardim Botânico
você pode ainda caminhar pelo Jardim de
Lineu e conhecer o Lago dos Bugios, além
de se embrenhar pela Trilha da Nascente, que o
levará para dentro de um remanescente de
Mata Atlântica bem no interior da região
metropolitana de São Paulo.
Acredite, é
muito mais divertido e humanamente mais correto
do que qualquer espetáculo de circo.
Uma vez que os habitats
dos bugios na Mata Atlântica foram severamente
devastados e reduzidos ao longo da história
do Brasil, é mesmo muita sorte dos bugios
poderem viver livremente no Jardim Botânico.
Enquanto ainda podemos
apreciar esses bugios em seus habitats naturais
temos o dever de protegê-los, ajudando a
conservar e preservar seus habitats de uma destruição
ainda maior. Caso contrário todos os bugios
poderão sofrer uma "queda" fatal
e devastadora!
Eugene E. Harri, PhD
Professor of Biology and Anthropology
City University of New York
Translated by Daniela Nicolaev
"Um exemplo
de um bugio no Jardim Botânico, comendo
enquanto pendurado em um galho por sua cauda
preênsil.”
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